O RoRo e a Lalinha decidiram que queriam pipoca para nosso piquenique. Mas não qualquer uma...
"Quero pipoca sem caroço", disse a Lalinha. Tentei, mas pipoca que estoura todinha sem ficar nenhum piruá, só as da Tia Tila... Saudade delas!
é o meu espaço, e um espaço para quem mais se interessar, para registrar, desabafar, refletir, questionar e rir das experiências da vida de mãe, de pai, de filho...
26 de agosto de 2011
5 de agosto de 2011
Lobo Mau
Fazia algumas noites que a Lalinha acordava e ia para o meu quarto. No começo achei que fosse manha. Todas as vezes que eu voltava com ela para sua cama, passava um tempo e ela voltava para a minha. Ela chorava, reclamava, e eu, sonada, só pensava no movimento automático de devolvê-la à sua cama. Algumas vezes, extremamente cansada, deixava-a dormir entre mim e meu marido porque eu precisava de uma noite bem dormida.
Numa das noites resolvi perguntar o que acontecia, pergunta que eu devia ter feito desde o início (a pergunta é a coisa mais básica para tentar entender uma situação!). Ela me respondeu que tinha um lobo no seu quarto. Parti para o óbvio, dizendo que lobos não existem nos quartos das crianças, que ela podia dormir. Mas ela voltava a acordar e o ritual se repetia. Para ela o lobo continuava a existir.
Por uma razão que não tem a ver com esta história, alguém comentou comigo sobre o livro Chapeuzinhos Coloridos, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta. Comprei o livro, li as histórias e, numa das noites, depois de tantas coisas que acontecem com os lobos das histórias das Chapeuzinhos Coloridos (vale muito à pena a leitura), tive uma idéia genial (sim, livros infantis são nossos melhores conselheiros porque usam a linguagem da criança!). Enquanto eu levava a Lalinha de volta para sua cama, disse-lhe: "Vamos falar para o lobo ir embora!". Ela topou e juntas falamos firmes: "Vai lobo, deixa a Lalinha dormir tranquila.".
Precisamos de três noites e o lobo mau partiu de vez do seu quarto - e o livro virou uma de nossas leituras prediletas. Logo mais vamos escrever a história do Lobo Mau da Chapeuzinho Rosa, que os autores deixaram para as crianças criarem...
Fantasminha do crescimento
Ontem o RoRo mordeu um palmito e gritou: "Ai meu dente!". Disse que machucou, mas não vi nada diferente. À noite, ao escovar seus dentes, percebi que o tal dente estava mole. Como um palmito podia ser tão maldoso assim?
É, mas o palmito não foi o vilão. Ele só mostrou que aquele incisivo está querendo cair...
Quanto temor começou a rondar sua cabecinha: "E se eu engolir o dente?", "E se cair na escola?", "Vai doer?", "E se cair e eu estiver dormindo?". Perguntas temperadas por lágrimas assustadas e curiosas que me fizeram lembrar da minha primeira mesntruação. Diferente de gerações anteriores à minha que foram pegas de surpresa, eu sabia o que era, que meu dia ia chegar, mas lembro-me com clareza do quanto chorei. Eu tinha completado 13 anos, mas chorava porque eu não queria aquilo para mim. Eu ainda brincava de boneca, era uma criançona. Não queria crescer, mas a maturidade batia na porta.
Com o RoRo vejo o mesmo filminho. Ele, com 5 anos e 2 meses, chora pelo temor de perder os dentes, pelo temor do novo. Pela primeira vez pensei o crescimento pela ótica do desconhecido. Crescer significa enfrentar o que não se conhece: a vida sem chupeta, sem mamadeira, sem fralda, sem grade na cama, sem os dentes!
Minha sobrinha foi das últimas amiguinhas a perder o primeiro dente e torcia para este dia chegar. O novo era um troféu. Já com o RoRo (e mesmo comigo - tal mãe, tal filho!), o novo é um fantasminha que assusta. A fadinha do dente vai ter que ser generosa para mostrar que crescer faz parte da vida...
É, mas o palmito não foi o vilão. Ele só mostrou que aquele incisivo está querendo cair...
Quanto temor começou a rondar sua cabecinha: "E se eu engolir o dente?", "E se cair na escola?", "Vai doer?", "E se cair e eu estiver dormindo?". Perguntas temperadas por lágrimas assustadas e curiosas que me fizeram lembrar da minha primeira mesntruação. Diferente de gerações anteriores à minha que foram pegas de surpresa, eu sabia o que era, que meu dia ia chegar, mas lembro-me com clareza do quanto chorei. Eu tinha completado 13 anos, mas chorava porque eu não queria aquilo para mim. Eu ainda brincava de boneca, era uma criançona. Não queria crescer, mas a maturidade batia na porta.
Com o RoRo vejo o mesmo filminho. Ele, com 5 anos e 2 meses, chora pelo temor de perder os dentes, pelo temor do novo. Pela primeira vez pensei o crescimento pela ótica do desconhecido. Crescer significa enfrentar o que não se conhece: a vida sem chupeta, sem mamadeira, sem fralda, sem grade na cama, sem os dentes!
Minha sobrinha foi das últimas amiguinhas a perder o primeiro dente e torcia para este dia chegar. O novo era um troféu. Já com o RoRo (e mesmo comigo - tal mãe, tal filho!), o novo é um fantasminha que assusta. A fadinha do dente vai ter que ser generosa para mostrar que crescer faz parte da vida...
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22 de julho de 2011
Novo nome para cocô mole
Minha sobrinha Kika, 3 anos, atacou o armário de guloseimas na casa da avó. Resultado: contou para o pai que estava com "dordirréia"! No dia seguinte disse que não ia comer nada do armário. Teve dor de ser ré da sua própria extravagância...
16 de junho de 2011
Superlativos
O RoRo entrou na fase do super-mega-hiper, conforme ele mesmo descreve algumas coisas. E para dizer que algo é tudo isso sem usar estas 3 palavras grudadinhas, grande vira grandice.
Alto - altice
Feio - feiice
Gigante - gigantice
Doce - docice
Forte - fortice
Aperto - apertice
E por aí vai... Haja ice!
Alto - altice
Feio - feiice
Gigante - gigantice
Doce - docice
Forte - fortice
Aperto - apertice
E por aí vai... Haja ice!
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21 de maio de 2011
Barulho que sai da boca
Achei que fosse um arroto, mas quis ter certeza para ensinar e garantir que a Lalinha pedisse desculpa.
- Lalinha, que barulho foi esse?
- Foi pum que saiu da minha boca.
Ela aprendeu que o pum que sai pela boca chama-se arroto, e que depois dele, tem sempre que pedir desculpa.
- Lalinha, que barulho foi esse?
- Foi pum que saiu da minha boca.
Ela aprendeu que o pum que sai pela boca chama-se arroto, e que depois dele, tem sempre que pedir desculpa.
6 de abril de 2011
Peneirando sal?
Enquanto a moça que trabalha em casa passava a ricota na peneira para soltá-la, a Lalinha fala: "Sílva, tem muito sal". Sem entender, a Sílvia pergunta "Que sal?". E a Lalinha responde: "Muito sal, não pode muito sal... Tá caindo muito sal".
Ricota, sal... são brancos, são de comer. Como nas brincadeiras de casinha, que uma coisa vira outra com um simples toque de imaginação.
Ricota, sal... são brancos, são de comer. Como nas brincadeiras de casinha, que uma coisa vira outra com um simples toque de imaginação.
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Trocadilho da ervilha
O RoRo tem tomado banho sozinho. Às vezes eu o pego para uma faxina, ou, quando o banho ocorre com a Lalinha, dividimos as partes que eu reviso das que ele se lava sem checagem materna.
Hoje ele fala: "Já lavei a ervilha do pipi". "O quê?", perguntei sem entender nada. Como resposta, ouvi a mesma frase.
"Onde fica a ervilha do pipi?", repeti a pergunta. "Aqui.", apontando para a virília.
Por um momento virília foi confundida com ervilha!
Hoje ele fala: "Já lavei a ervilha do pipi". "O quê?", perguntei sem entender nada. Como resposta, ouvi a mesma frase.
"Onde fica a ervilha do pipi?", repeti a pergunta. "Aqui.", apontando para a virília.
Por um momento virília foi confundida com ervilha!
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18 de março de 2011
17 de março de 2011
Explicando a morte para uma criança
Estávamos no carro, o RoRo com uns 3 anos e meio, quando ele perguntou se a tia Bia não tinha pai. Respondi que sim, mas que ele tinha morrido há alguns anos. Surgiu, então, a questão: "O que é morrer?". E a resposta mais óbvia do mundo: "Morrer é deixar de viver, é não estar mais vivo."
- "Eu estou vivo?"
- "Está."
- "Você está viva?"
- "Estou."
- "O papai está vivo?"
- "Está."
Na relação de pessoas vivas veio a família toda e alguns amigos.
Por semanas ele repetiu as mesmas perguntas, transformando num inquérito a brincadeira de vivo ou morto.
Do vivo-morto começaram a surgir outras perguntas: "Como morre?". "Você vai morrer?". "Quando você vai morrer?". Para cada pergunta uma resposta simples e sempre a mesma:
Como morre? - Antes mesmo da minha resposta, o RoRo apresentava a dele com dramatizações e mais interrogações: Deitado? Dormindo? Sentado? Vida e morte ainda estavam muito coladas à brincadeira do vivo-morto, saindo pela primeira vez da vivência corporal para a intelectual. A minha resposta: "Quando o coração pára de bater, quando a pessoa não consegue mais respirar, quando a pessoa está muito velhinha..."
Você vai morrer? - "Todos nós vamos. Tudo o que tem vida morre um dia, as plantas, as flores, as pessoas."
Quando você vai morrer? - "Isso ninguém sabe, não dá para responder."
Das conversas que surgiram fomos incluindo as pessoas da família que já tinham morrido, contando seus nomes, suas histórias. Suas perguntas se costuravam num zig-zag de conteúdos assimilados e novas questões que incrementavam o tema.
- "Para onde vão as pessoas que morrem?"
- "Vão para onde as pessoas que morrem vão."
Esta resposta se sustentou por muito tempo, o que me deixava bastante tranquila. Como não somos religiosos, Deus ainda não tinha entrado em nossas conversas (bem como ainda não entrou). Introduzir a tão comum ideia de Céu me incomodava por me fazer lembrar de um primo, que na ocasião do luto pela morte do meu avô, perguntava à mãe se não era possível colocar vários prédios, um sobre o outro, para conseguir alcançá-lo no Céu. Honestamente, não queria correr o risco de me enroscar na engenharia.
Pelos meus percursos religiosos entre o Catolicismo, o Protestantismo e o Espiritismo, e pelas perdas de pessoas muito queridas na minha adolescência, construi para mim mesma a ideia de que depois da morte todo mundo se encontra e fica melhor do que estava antes (meu único consolo para achar que essa coisa tenha um pouco de vantagem, para quem vai e para quem fica). Essa ideia já tinha sido passada para minha sobrinha, que se satisfez com a resposta. Então, não tinha por que eu fazer diferente com meu próprio filho.
Pois bem, tudo muito didático, transparente e compreensível - todo mundo nasce, todo mundo morre (aliás, nascer e morrer são questionamentos que caminham juntos nesta idade) - mas só até a morte estar relacionada a pessoas que o RoRo tinha tido um convívio mínimo ou não conhecera.
Desde que nasceu, o RoRo teve 3 avós, as 2 biológicas e a Titila, a tia avó, irmã da minha mãe, que ocupou o terceiro posto. Nossa convivência era quase diária, uma companheirona dele e minha (mais tarde, da Lalinha também) nos momentos mais alegres e nos mais difíceis. O ano passado inteiro, contudo, foi um ano de intensa luta contra metásteses que se instalaram em seu corpo. O RoRo acompanhou sua história, as marcas na pele para a radioterapia (desenho com canetinha!), a queda do cabelo (e entender que o papai toma remédio para não cair cabelo e a Titila tomava um que fazia o cabelo cair!), a combinação dos turbantes com as roupas, sua dificuldade em encontrar posição que minimizasse suas dores, seu afastamento da nossa casa (não caminhava a pé nos 2 quarteirões que nos separavam), as tardes em que não nos encontrávamos porque ela estava em algum médico ou reclusa em recuperação da quimioterapia... Mais tarde, a boa notícia de que as "manchinhas" tinham sumido, a visita dela na nossa casa nova, a preparação para sua festa de 74 anos organizada por ele e por mim e, infelizmente, a triste realidade de que "as manchinhas tinham voltado e desta vez não tinha remédio que pudesse tirá-las do seu corpo". Uma semana depois da festa com bolo, brigadeiro e bexiga, Titila internou e não saiu mais.
Todos os dias o RoRo perguntava como ela estava, se havia melhorado, até que um dia, depois de quase um mês e meio internada, minha mãe avisa que seus sinais vitais estavam muito fracos e que só nos restava esperar o corpo parar de pulsar. Preparei tudo em casa e, antes de sair, falei ao RoRo, Lalinha e minhas sobrinhas, também com 2 anos e 8 meses: "Estou indo para o hospital porque a Titila está muito fraquinha e não tem nenhum remédio que possa fazê-la melhorar. Ela vai morrer.".
Eu precisava dizer isso para eles, principalmente ao RoRo porque eu sabia que eu não voltaria tão cedo para casa e eu queria que ele ouvisse de mim essas palavras. E de fato foi o que aconteceu.
Por telefone orientei todos sobre o que já tínhamos conversado sobre a morte e o que eu achava que podia ser dito. Em vão...
Nosso encontro no dia seguinte, depois do enterro, foi uma avalanche de emoções, perguntas e surpresa de conteúdos que não saíram das nossas inúmeras conversas sobre vida e morte. Todo o cuidado que eu imaginava ter tido em "prepará-lo" para o tema parecia ter ido por água abaixo.
Com 4 anos e meio, as perguntas sobre morte foram ficando cada vez mais refinadas com novos conteúdos apresentados por quem esteve com ele na minha ausência. Não consegui abraçar meu filho sem chorar. Minhas lágrimas eram minha tristeza, mas também um alvará para que ele pudesse expressar o que estava sentindo. Choramos juntos por mais de uma hora. O RoRo estava desolado por não ter ido se despedir da tia (nunca achei que velório e cemitério fossem lugar para criança) e ansioso para ter resposta a tantas perguntas que pareciam sair de um saquinho de sorteio, num ir e vir sem fim:
- "A Titila já virou pó?"
- "Onde ela morreu?"
- "Quem colocou a Titila na caixa (caixão)?"
- "Como enterra?"
- "Como ela foi colocada na caixa?"
Entre cada pergunta, meu espanto, decepção e um pouco de desespero de como eu iria sair daquela situação. Quem lhe dissera essas coisas? Não adiantava eu procurar o "culpado". Dei-me conta, com a morte, que as coisas da vida chegam às crianças por mais que a gente tente protegê-las. O RoRo tinha fragmentos assustadores de um enterro, e eu, uma situação que parecia não ter saída. Cheguei até a esboçar um discurso sobre corpo e alma! Uma catástrofe.
Sem saber qual caminho trilhar, recorri à minha grande amiga, que me sugeriu falar que minha tia tinha virado uma estrelinha no Céu. Mais tranquilia por ter dividido minha angústia, eu tinha dúvidas se devia falar desta maneira. Além do mundo novo que o RoRo questionava, eu ainda teria que apresentar o Céu? Mas como, se minha tia estava numa caixa embaixo da terra...
Telefonei para outra grande amiga, minha fada, que sugeriu que eu dissesse que onde minha tia estava tinha uma escada para o Céu, que só ela podia ver. Escada? Não!
Minha cabeça girava, meu filho chorava. Eu chorava junto, de tristeza, de impotência. Tudo o que ele ouvira era concreto demais, doloroso e difícil de entender sem ver. Numa idade em que fantasia e realidade caminham juntas, acabei me rendendo ao Céu. Não tinha pensado antes que ele é mágico, misterioso, grande, bonito, infinito. Quem nunca quis tocá-lo ou andar de avião para ficar bem pertinho dele? É muito melhor do que a caixa, a terra, que sufocam e apertam. Por que eu não tinha me rendido a essa ideia antes?
Remendando de um lado a outro eu disse algo assim: "A Titila não vai ficar morando na caixa. Ela só entrou na caixa para poder pegar uma passagem secreta para o Céu. Ela vai morar lá, onde já moram as pessoas que morreram e que ela gostava muito. Vai encontrar todo mundo e ficar feliz, sem dor". Claro que o RoRo me perguntou como era essa passagem, e eu respondi que não sabia porque a gente precisava morrer para saber. Ficamos calmos.
Os dias seguintes foram recheados de perguntas, mas havia um conteúdo mais lúdico. O RoRo contou para a Lalinha que a Titila agora morava no Céu e, depois de um silêncio, os vi no terraço do nosso apartamento no 11° andar chamando pela tia e abanando a mão. Eles se divertiam, como sempre acontecia na sua presença.
Dois meses se passaram de sua morte e o RoRo ainda fala da Titila, quase todos os dias. Chora porque tem saudades, lembra do que ela fazia, usa o que ela deu, brinca com os imãs de geladeira que ficaram de herança para ele e a Lalinha... Lembra da tia com carinho e saudades, e, o que acho mais importante, elabora o luto. Já disse que queria morrer em Tatuí (onde minha tia foi enterrada) para ficar no Céu daquela cidade (me confirmou que para poder ficar perto dela) e que queria morrer antes de todo mundo (incrível que percebeu que quem morre primeiro não sofre pela morte dos que se vão depois). O RoRo fala sobre morte, inventa estórias sobre morrer, em casa, na escola, por onde passa. Quem está a sua volta escuta, faz perguntas, fala sobre saudade, tristeza, perdas, mostrando que isso tudo faz parte da vida, como os bons momentos que a gente tem com as coisas e pessoas que a gente gosta muito.
A morte é sempre uma lição, como a vida. Ela surpreende não pelo fim, mas pela percepção daquilo que no dia a dia a gente não se dá conta que existe...
- "Eu estou vivo?"
- "Está."
- "Você está viva?"
- "Estou."
- "O papai está vivo?"
- "Está."
Na relação de pessoas vivas veio a família toda e alguns amigos.
Por semanas ele repetiu as mesmas perguntas, transformando num inquérito a brincadeira de vivo ou morto.
Do vivo-morto começaram a surgir outras perguntas: "Como morre?". "Você vai morrer?". "Quando você vai morrer?". Para cada pergunta uma resposta simples e sempre a mesma:
Como morre? - Antes mesmo da minha resposta, o RoRo apresentava a dele com dramatizações e mais interrogações: Deitado? Dormindo? Sentado? Vida e morte ainda estavam muito coladas à brincadeira do vivo-morto, saindo pela primeira vez da vivência corporal para a intelectual. A minha resposta: "Quando o coração pára de bater, quando a pessoa não consegue mais respirar, quando a pessoa está muito velhinha..."
Você vai morrer? - "Todos nós vamos. Tudo o que tem vida morre um dia, as plantas, as flores, as pessoas."
Quando você vai morrer? - "Isso ninguém sabe, não dá para responder."
Das conversas que surgiram fomos incluindo as pessoas da família que já tinham morrido, contando seus nomes, suas histórias. Suas perguntas se costuravam num zig-zag de conteúdos assimilados e novas questões que incrementavam o tema.
- "Para onde vão as pessoas que morrem?"
- "Vão para onde as pessoas que morrem vão."
Esta resposta se sustentou por muito tempo, o que me deixava bastante tranquila. Como não somos religiosos, Deus ainda não tinha entrado em nossas conversas (bem como ainda não entrou). Introduzir a tão comum ideia de Céu me incomodava por me fazer lembrar de um primo, que na ocasião do luto pela morte do meu avô, perguntava à mãe se não era possível colocar vários prédios, um sobre o outro, para conseguir alcançá-lo no Céu. Honestamente, não queria correr o risco de me enroscar na engenharia.
Pelos meus percursos religiosos entre o Catolicismo, o Protestantismo e o Espiritismo, e pelas perdas de pessoas muito queridas na minha adolescência, construi para mim mesma a ideia de que depois da morte todo mundo se encontra e fica melhor do que estava antes (meu único consolo para achar que essa coisa tenha um pouco de vantagem, para quem vai e para quem fica). Essa ideia já tinha sido passada para minha sobrinha, que se satisfez com a resposta. Então, não tinha por que eu fazer diferente com meu próprio filho.
Pois bem, tudo muito didático, transparente e compreensível - todo mundo nasce, todo mundo morre (aliás, nascer e morrer são questionamentos que caminham juntos nesta idade) - mas só até a morte estar relacionada a pessoas que o RoRo tinha tido um convívio mínimo ou não conhecera.
Desde que nasceu, o RoRo teve 3 avós, as 2 biológicas e a Titila, a tia avó, irmã da minha mãe, que ocupou o terceiro posto. Nossa convivência era quase diária, uma companheirona dele e minha (mais tarde, da Lalinha também) nos momentos mais alegres e nos mais difíceis. O ano passado inteiro, contudo, foi um ano de intensa luta contra metásteses que se instalaram em seu corpo. O RoRo acompanhou sua história, as marcas na pele para a radioterapia (desenho com canetinha!), a queda do cabelo (e entender que o papai toma remédio para não cair cabelo e a Titila tomava um que fazia o cabelo cair!), a combinação dos turbantes com as roupas, sua dificuldade em encontrar posição que minimizasse suas dores, seu afastamento da nossa casa (não caminhava a pé nos 2 quarteirões que nos separavam), as tardes em que não nos encontrávamos porque ela estava em algum médico ou reclusa em recuperação da quimioterapia... Mais tarde, a boa notícia de que as "manchinhas" tinham sumido, a visita dela na nossa casa nova, a preparação para sua festa de 74 anos organizada por ele e por mim e, infelizmente, a triste realidade de que "as manchinhas tinham voltado e desta vez não tinha remédio que pudesse tirá-las do seu corpo". Uma semana depois da festa com bolo, brigadeiro e bexiga, Titila internou e não saiu mais.
Todos os dias o RoRo perguntava como ela estava, se havia melhorado, até que um dia, depois de quase um mês e meio internada, minha mãe avisa que seus sinais vitais estavam muito fracos e que só nos restava esperar o corpo parar de pulsar. Preparei tudo em casa e, antes de sair, falei ao RoRo, Lalinha e minhas sobrinhas, também com 2 anos e 8 meses: "Estou indo para o hospital porque a Titila está muito fraquinha e não tem nenhum remédio que possa fazê-la melhorar. Ela vai morrer.".
Eu precisava dizer isso para eles, principalmente ao RoRo porque eu sabia que eu não voltaria tão cedo para casa e eu queria que ele ouvisse de mim essas palavras. E de fato foi o que aconteceu.
Por telefone orientei todos sobre o que já tínhamos conversado sobre a morte e o que eu achava que podia ser dito. Em vão...
Nosso encontro no dia seguinte, depois do enterro, foi uma avalanche de emoções, perguntas e surpresa de conteúdos que não saíram das nossas inúmeras conversas sobre vida e morte. Todo o cuidado que eu imaginava ter tido em "prepará-lo" para o tema parecia ter ido por água abaixo.
Com 4 anos e meio, as perguntas sobre morte foram ficando cada vez mais refinadas com novos conteúdos apresentados por quem esteve com ele na minha ausência. Não consegui abraçar meu filho sem chorar. Minhas lágrimas eram minha tristeza, mas também um alvará para que ele pudesse expressar o que estava sentindo. Choramos juntos por mais de uma hora. O RoRo estava desolado por não ter ido se despedir da tia (nunca achei que velório e cemitério fossem lugar para criança) e ansioso para ter resposta a tantas perguntas que pareciam sair de um saquinho de sorteio, num ir e vir sem fim:
- "A Titila já virou pó?"
- "Onde ela morreu?"
- "Quem colocou a Titila na caixa (caixão)?"
- "Como enterra?"
- "Como ela foi colocada na caixa?"
Entre cada pergunta, meu espanto, decepção e um pouco de desespero de como eu iria sair daquela situação. Quem lhe dissera essas coisas? Não adiantava eu procurar o "culpado". Dei-me conta, com a morte, que as coisas da vida chegam às crianças por mais que a gente tente protegê-las. O RoRo tinha fragmentos assustadores de um enterro, e eu, uma situação que parecia não ter saída. Cheguei até a esboçar um discurso sobre corpo e alma! Uma catástrofe.
Sem saber qual caminho trilhar, recorri à minha grande amiga, que me sugeriu falar que minha tia tinha virado uma estrelinha no Céu. Mais tranquilia por ter dividido minha angústia, eu tinha dúvidas se devia falar desta maneira. Além do mundo novo que o RoRo questionava, eu ainda teria que apresentar o Céu? Mas como, se minha tia estava numa caixa embaixo da terra...
Telefonei para outra grande amiga, minha fada, que sugeriu que eu dissesse que onde minha tia estava tinha uma escada para o Céu, que só ela podia ver. Escada? Não!
Minha cabeça girava, meu filho chorava. Eu chorava junto, de tristeza, de impotência. Tudo o que ele ouvira era concreto demais, doloroso e difícil de entender sem ver. Numa idade em que fantasia e realidade caminham juntas, acabei me rendendo ao Céu. Não tinha pensado antes que ele é mágico, misterioso, grande, bonito, infinito. Quem nunca quis tocá-lo ou andar de avião para ficar bem pertinho dele? É muito melhor do que a caixa, a terra, que sufocam e apertam. Por que eu não tinha me rendido a essa ideia antes?
Remendando de um lado a outro eu disse algo assim: "A Titila não vai ficar morando na caixa. Ela só entrou na caixa para poder pegar uma passagem secreta para o Céu. Ela vai morar lá, onde já moram as pessoas que morreram e que ela gostava muito. Vai encontrar todo mundo e ficar feliz, sem dor". Claro que o RoRo me perguntou como era essa passagem, e eu respondi que não sabia porque a gente precisava morrer para saber. Ficamos calmos.
Os dias seguintes foram recheados de perguntas, mas havia um conteúdo mais lúdico. O RoRo contou para a Lalinha que a Titila agora morava no Céu e, depois de um silêncio, os vi no terraço do nosso apartamento no 11° andar chamando pela tia e abanando a mão. Eles se divertiam, como sempre acontecia na sua presença.
Dois meses se passaram de sua morte e o RoRo ainda fala da Titila, quase todos os dias. Chora porque tem saudades, lembra do que ela fazia, usa o que ela deu, brinca com os imãs de geladeira que ficaram de herança para ele e a Lalinha... Lembra da tia com carinho e saudades, e, o que acho mais importante, elabora o luto. Já disse que queria morrer em Tatuí (onde minha tia foi enterrada) para ficar no Céu daquela cidade (me confirmou que para poder ficar perto dela) e que queria morrer antes de todo mundo (incrível que percebeu que quem morre primeiro não sofre pela morte dos que se vão depois). O RoRo fala sobre morte, inventa estórias sobre morrer, em casa, na escola, por onde passa. Quem está a sua volta escuta, faz perguntas, fala sobre saudade, tristeza, perdas, mostrando que isso tudo faz parte da vida, como os bons momentos que a gente tem com as coisas e pessoas que a gente gosta muito.
A morte é sempre uma lição, como a vida. Ela surpreende não pelo fim, mas pela percepção daquilo que no dia a dia a gente não se dá conta que existe...
8 de março de 2011
Quem "dirige" o avião?
É o Robôtolo, respondeu a Lalinha.
Neologismo? Dificuldade com as palavras? Ou sabedoria infantil de que a máquina é comandada por robôs + pilotos?
Seja o que for, ela conseguiu com o irmão, num vôo vazio, conhecer a cabine de uma aeronave. Amou, como toda criança!
Neologismo? Dificuldade com as palavras? Ou sabedoria infantil de que a máquina é comandada por robôs + pilotos?
Seja o que for, ela conseguiu com o irmão, num vôo vazio, conhecer a cabine de uma aeronave. Amou, como toda criança!
4 de outubro de 2010
Já sei!
O RoRo está na fase "mania de explicação"; quer saber tudo e, muitas vezes, já sabe tudo. Por quê sou mais velha do que ele? Por quê nasci antes dele? Simplesmente pela mais deliciosa resposta que uma mãe poderia ouvir: "Já sei, para você poder ser minha mãe!". Nunca ter 38 anos foi tão bom na vida!
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